Vou reproduzir aqui um artigo do Público, que podia ter passado despercebido. O artigo está sem um rigor científico que este caso lhe impunha, embora falar sobre o clima e principalmente de precipitações, não seja fácil, já que não existe modelos seguros de previsão de precipitação, mas o tema é suficientemente delicado para que se lhe dê atenção. E atenção foi algo que não tem sido dada nos últimos anos.
O processo de desertificação faz-se sentir há mais de 20 anos no sul da península. Actualmente pode ser agravado, acelerado pelo aquecimento global que estamos sofrendo, mas nem isso tem merecido uma atenção especial da administração. Problemas de falta de água, racionar o abastecimento, repensar o modelo agrário e começar a implementar uma gestão integrada da água, com consumo de água subterrânea e superficial, deverão ser temas com alto grau de prioridade por parte dos administradores públicos.
in Público:
A gravidade da situação pode ser ilustrada através do nível médio de precipitação da região. Entre 1971-2000, a média anual foi de 571 milímetros. Até ao fim de Outubro deste ano, o acumulado ronda os 160 mm, o que corresponde a apenas 28 por cento da média entre 1971 e 2000.
Habitualmente, os meses de Outono e Inverno são responsáveis por 60 por cento da precipitação anual no Alentejo. Se 2009 respeitasse a média de 1971-2000, isso corresponderia a cerca de 342 mm de chuva. Acontece que em Setembro de 2009 a pluviosidade chegou apenas aos 32 mm e Outubro foi ainda mais seco - apenas três milímetros, menos que em Agosto.
Luís Peres de Sousa, professor da Escola Superior Agrária de Beja e também ele agricultor, salienta, por isso, que o nível de precipitação deste Outono está muito longe do que seria necessário para esta altura. "Este ano praticamente não choveu. Algumas culturas ainda tiveram sorte, mas os lençóis freáticos encontram-se numa situação muito difícil", diz. O sistema de rega de Alqueva não vai chegar a tempo de fornecer água aos locais onde os níveis são equivalentes aos que seriam habituais no Verão.
Por essa razão, adensa-se o receio de que se esteja a repetir o cenário dramático da seca de 2005. Nesse ano morreram, por falta de água e de alimento, dezenas de milhares de cabeças de gado e a região deixou de produzir o que quer que fosse.
Situação gravíssima
O pior cenário é o dos agricultores do Baixo Alentejo, sobretudo os da margem esquerda do Guadiana. O presidente da Associação de Agricultores de Serpa, Sebastião Rodrigues, alerta para "uma situação gravíssima". A maioria dos agricultores recusa-se a semear, dada a falta de garantias de que terão água. E os que fizeram culturas "estão com o credo na boca". Quem lançou semente para pastagens "já meteu o gado em cima" para não ter que o alimentar à mão, uma situação anómala que se reflecte na criação de borregos.
"Até a produção de azeitona está a ser afectada", prossegue, frisando que os olivais da margem esquerda do Guadiana apresentam um fruto com muito caroço e pouca massa para a produção de azeite. Aquele dirigente associativo espera sensibilizar o Governo para a dimensão do "desastre" que pode vir acontecer no próximo Verão, se "a máquina burocrática do Ministério da Agricultura não antecipar meios para intervir". É que desde 2005 "nada foi feito para evitar a repetição do flagelo" que, há quatro anos, destruiu explorações agrícolas e acelerou ainda mais a desertificação dos campos alentejanos.
O agricultor alemão Dietmar Ochsenreiker dirige uma herdade na estrada que liga Serpa a Mértola, em Vale de Açor de Cima. A continuar assim," o ano agrícola está perdido", afirma. E, mesmo que chova, "os novos pastos só estarão disponíveis para Abril".
O PÚBLICO tentou obter uma reacção do Ministério da Agricultura, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.
in Público
21 de novembro de 2009
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