Pagar e Pagar!!!!!!!
The executive one…
Consideremos um executivo “rico”, português, que ganhe 4 mil euros mensais. Suponhamos, para facilitar as contas, que é solteiro. Suponhamos ainda que recebe, em ajudas de custo e senhas de refeição 500 euros mensais. Este valor é o seu “seguro de subsistência” como veremos adiante. Vejamos o que o Moloch lhe engole mensalmente:
Em primeiro lugar, o vencimento dele não são 4 mil euros mensais. A empresa lança para as fauces do Moloch 23,75% daquele valor (950 euros mensais). O nosso executivo custa à empresa 5.450 euros mensais. Quanto é que ele leva para casa?
São-lhe retidos 1.060,00 € de IRS (26,5%) e 440 € de Taxa Social Única. Leva apenas 3 mil euros. Da sua remuneração bruta, 45% já foi entregue ao Moloch. Se contarmos apenas com a remuneração oficial, entregou 49,5%.
O nosso executivo comprou uma casa em Lisboa. Como é solteiro, comprou um T1 por 150 mil euros. A amortização do empréstimo custa-lhe 694 €/mês, mas como cerca de 45% dos custos de construção são impostos, o nosso executivo entrega ao Moloch, sem se dar conta, 312,3€/mês. Adicionalmente entrega-lhe o IMI que, em termos mensais, será de 87,5€. O IMT tem pouco peso (considerando que se repercute em 30 anos) e considerei incluído nos impostos sobre a construção.
Nesta altura sobejam-lhe 2.218,50€ e entregou em impostos, directa ou indirectamente, 52,4%. Se contarmos apenas com a remuneração oficial, entregou 57,7%.
Mas o nosso executivo comprou uma viatura por 55 mil euros (que inclui 26 mil euros de impostos diversos). Nada de especial, afinal ele é um executivo “rico” português. Considerando que o carro dura 6 anos (72 meses) e sem entrar em conta com taxas intertemporais de preferência pela liquidez, dividimos simplesmente os valores em causa por 72. Ele pagará 763,89€ por mês, dos quais 361,11€ ao Moloch. Vamos admitir que ele anda 2.500 kms/mês, o que poderá equivaler a 241,5€ de gasolina por mês. Como 68% do preço da gasolina são impostos, o nosso feliz executivo entrega mensalmente mais 136,85€ ao insaciável Moloch.
Nesta altura do mês, o nosso executivo “rico” português tem apenas 1.317,76€, e já lançou 61,6% da sua remuneração bruta para as fauces insaciáveis do Moloch (Se contarmos apenas com a remuneração oficial, entregou 67,8%). Felizmente ele havia recebido 500€ livres de impostos, senão estava feito.
O nosso feliz e “rico” executivo português vai despender aquele valor que lhe sobejou em bens de consumo. Ele não fuma, porque teve que abandonar o vício por falta de liquidez. Suponhamos que o IVA médio, para o seu cabaz de compras é de 17%. Provavelmente será maior, com a taxa máxima a 21%. Se despender aqueles valores em bens de consumo, entregará ao predador Moloch mais 224,02€. Da sua remuneração bruta, incluindo aquela que “passou por baixo da mesa”, o nosso feliz e “rico” executivo português entregou ao Estado 65,7% em impostos. Se contarmos apenas com a remuneração oficial, entregou 72,2%.
A pergunta que se põe é: O que é que o nosso feliz e “rico” executivo português recebe em troca do Estado, por lhe ter entregue cerca de 70% do valor do seu trabalho?
E ele só agora se lembrou que tem que ir comprar rapidamente o Selo para o carro!
E o esforçado sobrevivente…
Consideremos uma empregada numa firma de limpezas que ganhe 400 euros mensais. Suponhamos que é casada com um cantoneiro da Câmara que ganha outros 400. Suponhamos que ela lava umas escadas por fora e que ele faz uns biscates, o que lhes dá no total mais 200 euros livres de impostos. Quanto é que eles levam para casa?
São-lhes retidos 48,00 € de IRS e 88,00 € de descontos. Levam 864,00 €. Do que recebem, 13,6% vai para o Estado.
O nosso casal comprou uma casa na Damaia. Como ainda não têm filhos, compraram um T1 por 60 mil euros. A amortização do empréstimo custa-lhes 278 €/mês, mas como cerca de 45% desta quantia corresponde a impostos, entregam ao Estado, sem se darem conta, 125 €/mês, ao que se acrescentam 25 € de taxa autárquica.
Nesta altura sobram-lhes 714,00 € e entregaram em impostos 28,6% da sua remuneração - ou, contando apenas com a oficial, 35,75%.
Compraram um carro usado com 10 anos, e porque era usado não pagaram IVVA. Não podem dar-se ao luxo de andar 2.500 kms/mês, só andam 750: digamos, considerando que o carro é velho, está mal afinado e gasta mais do que devia, que gastam 72 € de gasolina: são 49€ para o Estado.
Já só têm 665€. Se o despenderem em consumo - e, ao contrário do executivo da Joana, têm mesmo que o fazer, porque o dinheiro não chega para aplicações financeiras a que correspondam benefícios fiscais - e se ao seu consumo, por ter uma grande componente de bens essenciais, corresponder um IVA médio de 14%, entregarão ao Estado 93€.
De tudo o que ganharam entregaram ao Estado 42,8%. Se contarmos apenas com a remuneração oficial, entregaram ao Estado 53,5%. Em termos absolutos, entregaram ao Estado mais do que o Estado paga ao membro masculino do casal: para pagar a este funcionário público não são precisos os impostos do executivo da Joana.
O que é que estes dois recebem do E$stado em troca dos seus impostos? O médico da Centro de Saúde, a protecção da polícia, a pensão de reforma quando forem velhos, o subsídio de desemprego se ficarem desempregados, o ensino mais ou menos gratuito dos filhos se e quando os tiverem.
Quando tiverem filhos vão ter um nível de vida ainda mais baixo, mesmo recebendo o abono de família. Nem pensar em um deles deixar de trabalhar. Vão ter que alimentar, vestir e calçar os filhos enquanto eles andarem na escola - a adquirir as qualificações para um dia trabalharem para um executivo pago a 4 (ou 40) mil euros que todo se revolta porque tem de pagar a escola dos filhos dos outros.
Maldizente
11 de junho de 2005
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